Peças impressas para carros e motos: o que dá e o que não

Um tablier ao sol de Agosto chega perto dos 80 graus. Metade das peças que nos pedem para carros vêm com o material errado escolhido à partida.

Equipa Aresta · · automóvel, ASA, temperatura, segurança

As peças de automóvel são dos pedidos mais frequentes que recebemos, e são também onde mais vezes temos de dizer que não — ou pelo menos «não assim».

Há duas razões, e é melhor dizê-las já: a temperatura e a responsabilidade.

O interior de um carro é um forno

Um carro estacionado ao sol em Portugal, no Verão, atinge no habitáculo temperaturas muito acima do que a maioria das pessoas imagina. O tablier, que apanha sol direto através do para-brisas, é a zona mais quente de todas e chega perto dos 80 °C.

O PLA começa a amolecer por volta dos 60 °C. Uma peça em PLA colocada num tablier não se estraga de um dia para o outro — deforma-se devagar, ao longo de algumas semanas de Verão, e um dia a pessoa repara que o suporte do telemóvel está ligeiramente torto e já não segura.

É por isso que quase nenhuma peça de interior de automóvel deve ser feita em PLA, por muito que seja o material mais barato e o mais fácil de imprimir.

Debaixo do capô é pior: junto ao motor há zonas que passam facilmente dos 100 °C, e aí saem de cena quase todos os plásticos correntes.

O que usar

ASA é o material por omissão para automóvel, e por duas razões que se somam. Aguenta o calor de um habitáculo com folga, e — ao contrário do ABS, que é o seu primo próximo — não amarelece nem fica quebradiço com a exposição ao ultravioleta. Um carro é sol o dia inteiro. As diferenças entre os materiais expostos ao sol estão neste guia.

ABS serve para peças de interior que não apanhem sol direto: dentro do porta-luvas, atrás de painéis, na consola.

PETG aguenta mais do que o PLA mas não chega para tablier. Serve para peças em zonas frescas e sombreadas.

Nylon com fibra de carbono (PA-CF) para peças que levam esforço mecânico a sério e onde o alumínio maquinado seria a alternativa. É o mais caro da lista e o mais exigente de imprimir, e nem sempre se justifica.

TPU para peças que têm de amortecer ou vedar — casquilhos, batentes, proteções.

O que fazemos com gosto

Suportes e adaptadores. Suporte de telemóvel, adaptador de porta-copos, apoio para telecomando, suporte de câmara. Em ASA, e desenhados à medida do carro.

Peças de acabamento interior que já não se encontram. Tampas de cinzeiro, botões, patilhas de ventilação, aros de altifalante. É o caso clássico de uma peça de dois euros que já não se fabrica e que obriga a comprar o conjunto inteiro. Basta a peça partida ou uma fotografia com uma régua ao lado — há um guia sobre o que medir.

Protótipos e gabaritos. Peças para validar um encaixe antes de mandar fazer em metal, ou gabaritos de furação para oficina.

Carenagens e suportes de moto que não levam esforço estrutural. Suportes de matrícula, guarda-lamas, coberturas.

Peças para carro clássico. É onde a impressão brilha, porque a alternativa muitas vezes não existe a preço nenhum. Já fizemos uma conduta de ar em ASA, réplica de uma que a marca deixou de fabricar.

O que não fazemos

Aqui somos diretos, e a razão é uma só: uma peça que falha num carro em andamento não falha sozinha.

Nada que trave, que dirija ou que segure. Componentes de travagem, direção, suspensão, fixações de cintos, pontos de amarração. Não há material FDM que substitua metal nestas funções, e uma peça impressa parte de forma súbita quando a carga passa o limite, sem o aviso que o metal dá.

Nada em contacto com combustível ou com óleo sob pressão. Os plásticos correntes degradam-se, e a fuga que resulta disso é a pior que há debaixo de um capô.

Nada colado ao motor ou ao escape. A temperatura mata qualquer um destes materiais.

Nada de segurança passiva. Suportes de airbag, componentes de banco, fixações de cadeirinha.

Peças que a inspeção olha. Mesmo que aguentem, uma peça estrutural não homologada é motivo de reprovação — e num sinistro é uma conversa má com o seguro.

Se nos pedirem uma destas, dizemos que não e explicamos porquê. Não é excesso de cuidado: é que a peça pareceria funcionar durante meses.

Uma nota sobre encaixes

As peças de automóvel encaixam quase sempre em sítios existentes, com clipes e calhas desenhados para um plástico injetado que não é o nosso. A folga certa muda tudo — tolerâncias e encaixes tem os números —, e um clipe demasiado apertado parte à segunda montagem.

Quando a peça leva clipes, imprimimos primeiro um exemplar de prova só com a zona de encaixe. Fica pronto no mesmo dia, custa pouco, e evita descobrir o problema depois de a peça inteira estar feita.

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